Mensagem de Fevereiro de 2019 – Osho
Este discurso é um marco
na obra do Osho, pois foi quando ele pela primeira vez teve suas
palavras gravadas e depois publicadas. Este discurso tornou-se o
primeiro capítulo do primeiro livro publicado do Osho. Trata-se da
palestra introdutória ao Campo de Meditação de Ranakpur que ele conduziu
em junho de 1964. O livro, originalmente publicado em hindi com o
título Path to Self-Realization, foi recentemente traduzido para o inglês como título The Perfect Way (O Caminho Perfeito).
“Almas
conscientes, Antes de tudo, por favor, aceitem o meu amor. Essa é a
única coisa com a qual eu posso dar-lhes as boas vindas ao isolamento e
reclusão destas montanhas. Na verdade, eu nada mais tenho a dar a vocês.
Eu quero compartilhar com vocês o infinito amor que a proximidade com o
divino criou em mim. Eu quero distribuí-lo. E a maravilha disso é que
quanto mais eu compartilho esse amor, mais ele cresce! Talvez a
verdadeira riqueza seja aquela que aumenta com a distribuição. A riqueza
que diminui quando é compartilhada, não é verdadeira riqueza, de modo
algum.Vocês então aceitam o meu amor?
Eu vejo aceitação em seus
olhos e eu vejo também que seus olhos se tornaram repletos de amor em
reciprocidade. Amor invoca amor e ódio invoca ódio. Tudo aquilo que nós
damos retorna para nós. Essa é uma lei eterna. Assim, tudo aquilo que
você deseja receber, é aquilo que você deve dar ao mundo. Você não pode
receber flores em retribuição a espinhos.
Eu vejo flores de amor e
paz desabrochando em seus olhos. Eu estou em profunda gratidão por
isso, agora, nós não somos muitos aqui: o amor nos junta e faz com que
muitos se tornem um. Corpos físicos estão separados e continuarão
separados, mas existe alguma coisa por trás dos corpos que se encontra
no amor, que se torna um através do amor. Só depois dessa unidade, de
nos tornarmos um, é que alguma coisa pode ser dita e compreendida. A
comunicação só é possível no amor.
Nós nos reunimos nesse lugar
isolado para que eu possa dizer algo a vocês e vocês possam me ouvir.
Esse dizer e esse ouvir não são possíveis sem uma corrente de amor. As
portas do coração somente se abrem para o amor. E lembre-se de que
somente quando alguém ouve com o coração, e não com a cabeça, é que o
ouvir acontece. Você pode me perguntar, ‘o coração também ouve?’ e eu
lhe direi que sempre que o ouvir acontece, é sempre através do coração. A
cabeça nunca ouviu qualquer coisa. A cabeça é uma pedra surda. E isso
também é verdadeiro quanto ao falar. Somente quando as palavras vêm do
coração, elas são cheias de significado. Somente quando as palavras vêm
do coração, elas têm a fragrância das flores frescas; se não for assim,
elas serão apenas envelhecidas e murchas, elas serão artificiais –
flores plásticas.
Eu vou derramar o meu coração em vocês, e se os
corações de vocês permitirem-me entrar, haverá um encontro e uma
comunicação. E então, naquele momento de encontro, aquilo que as
palavras são incapazes de expressar, será comunicado. Muitas coisas não
ditas serão ouvidas dessa maneira – aquilo que não pode ser colocado em
palavras, aquilo que fica entrelinhas, também será comunicado. Palavras
são indicações muito impotentes, mas se ouvidas em paz total da mente e
em silêncio, elas se tornam potentes. Isso é o que eu chamo de ouvir com
o coração.
Mas, geralmente, mesmo quando ouvimos alguém, nós
permanecemos cheios de nossos próprios pensamentos. Esse é o ‘falso
ouvir’. Então você não é um shravak, um ouvinte. Você está
apenas sob a ilusão de que você está ouvindo, mas de fato você não está.
Para ‘ouvir corretamente’, é necessário que a mente esteja em estado de
observação, completamente silenciosa. Quando você está apenas ouvindo e
nada mais está fazendo, somente então você será capaz de ouvir e
compreender, e essa compreensão se tornará luz e transformação dentro de
você. Se assim não acontecer, então você não está ouvindo a quem quer
que seja, mas apenas a si mesmo, você permanece cercado por um tumulto
enfurecido dentro de você. E quando você está envolvido dessa maneira
nada pode ser comunicado a você. Então você parece estar vendo, mas não
está; você parece estar ouvindo, mas não está.
Cristo disse:
‘aqueles que têm olhos para ver, que vejam. Aqueles que têm ouvidos para
ouvir, que ouçam.’ Estava ele dizendo que as pessoas não tinham olhos
nem ouvidos? É claro que elas tinham olhos e ouvidos, mas a mera
presença de olhos e ouvidos, não é suficiente para ver e ouvir. Algo
mais é necessário e sem isso a existência ou não existência de olhos e
ouvidos dá no mesmo. Aquele algo mais é o silêncio interior e a
consciência observadora. Somente quando essas qualidades estão presentes
é que as portas da mente se abrem e algo pode ser dito e ouvido.
Eu
espero que vocês me ouçam dessa maneira durante o período deste campo
de meditação. Uma vez que vocês tenham aprendido isso, isso se tornará
sua companheira por toda a vida. Isso será o suficiente para livrá-lo de
preocupações triviais.Você poderá se despertar para o grande universo
misterioso externo e você poderá experienciar a eterna e infinita luz de
consciência escondida por trás do tumulto de sua mente.
Ver
corretamente e ouvir corretamente não são meras necessidades para este
campo de meditação, são, na verdade, os pilares para todo um viver
corretamente. Da mesma maneira que tudo é claramente refletido através
de um lago totalmente calmo, sem ondas, também é verdade que o divino
será refletido em você quando você se tornar calmo e quieto como o lago.
Eu estou vendo um grande silêncio crescendo em vocês. Os seus olhos – a
sede pela vida que eu vejo em vocês – estão me convidando a dizer
aquilo que eu quero dizer. Eles estão me apressando a revelar as
verdades que eu tenho visto e que mexeram com minha alma, porque os seus
corações estão ansiosos e impacientes por compreendê-las.Vendo o quanto
vocês estão desejosos e prontos, meu coração está também pronto para se
derramar em vocês. Nessa paz que nos circunda, com o estado cheio de
paz de suas mentes, eu certamente serei capaz de dizer o que quero dizer
para todos vocês. Se eu tivesse encontrado ouvidos surdos diante de
mim, eu iria me segurar. A luz não permanece do lado de fora quando ela
encontra as portas de sua casa fechadas? Da mesma forma eu fico parado
do lado de fora de muitas casas. Mas é um bom sinal as suas portas
estarem abertas. É um bom começo.
Amanhã de manhã começaremos a
nossa jornada de experimento de meditação por cinco dias. Como suporte
para isso, eu gostaria de dizer algumas poucas coisas para vocês. Para a
meditação, para a percepção da verdade, o solo de suas mentes tem que
estar preparado da mesma maneira que uma pessoa precisa preparar o solo
para cultivar flores. Assim eu gostaria que vocês compreendessem alguns
sutras, alguns pontos chaves.
O primeiro sutra é: viva no presente.
Durante os dias do Campo não se deixem levar pelo fluxo mecânico de
seus pensamentos a respeito do passado e do futuro. É por causa disso
que o momento vivo, o momento que realmente existe, é desperdiçado e se
perde desnecessariamente. Nem o passado nem o futuro existem. Um é
apenas a memória, o outro é apenas imaginação. Somente o presente é o
momento vivo e verdadeiro. E se é para se conhecer a verdade, ela só
pode ser conhecida se estivermos no presente.
Durante esses dias
de meditação, mantenham-se conscientemente livres do passado e do
futuro. Aceite que eles não existem. Somente o momento em suas mãos, o
momento em que você está, existe. Você tem que viver nele, e vivê-lo
totalmente.
Esta noite durma tão profundo como se todo o seu
passado tivesse sido deixado de lado. Morra para o passado. E de manhã,
acorde como um novo homem numa nova manhã. Não deixe que acorde aquele
mesmo que foi para a cama. Deixe que aquele tenha um bom sono. Deixe que
no lugar dele acorde o que está sempre novo e sempre revigorado.
Mantenha
continuamente em sua lembrança por todo o tempo esse viver no presente,
e fique alerta para que aquele pensamento mecânico a respeito do
passado e do futuro nem volte de novo. Para isso, é suficiente
permanecer atento. Se você permanecer atento, ele não vai se
desencadear. A consciência destrói o hábito.
O segundo sutra é: viva naturalmente.
Todo o comportamento do homem é artificial e formal. Nós sempre nos
mantemos encobertos por um falso manto e por causa dessa coberta nós
gradualmente esquecemos nossa própria realidade. Você tem que deixar
cair essa pele falsa e jogá-la fora. Nós nos reunimos aqui, não para
encenar um drama, mas para nos conhecermos, para compreendermos a nós
mesmos. Da mesma forma que os atores de uma peça removem seus trajes e
maquiagem e colocam-nos de lado após a apresentação, nestes cinco dias,
você tem que remover suas falsas máscaras e jogá-las fora. Deixe que
aquilo que é original e natural em você venha à tona e viva nisso. A
meditação somente cresce numa vida simples e natural.
Durante
esses dias de meditação, saiba que você não tem que manter nenhuma
posição, você não é especial, você não tem qualquer status. Jogue fora
todas essas máscaras. Você é simplesmente você, um ser humano comum, sem
nome, sem status, sem classe, sem família, sem casta – simplesmente uma
pessoa sem nome, um indivíduo muito comum. Você tem que viver desse
jeito. E lembre-se que essa é também a nossa verdadeira realidade.
O terceiro sutra é: viva só.
A vida de meditação nasce em completa solidão, quando a pessoa está
totalmente só. Mas geralmente o homem nunca está só. Ele está sempre
cercado pelos outros. E quando ele não está no meio da multidão externa,
ele está em uma multidão interna. Essa multidão tem que ser dispersada.
Não
permita que a multidão se reúna dentro de você. E quanto ao lado de
fora, viva por si próprio como se você estivesse sozinho neste Campo.
Você não tem que manter relacionamentos com ninguém mais. No meio desses
incontáveis relacionamentos vocês se esqueceram de vocês mesmos. Todos
esses relacionamentos – nos quais vocês são amigos ou inimigos de
alguém, pai ou filho, esposa ou marido – absorveram vocês de tal maneira
que vocês são incapazes de conhecer a si mesmos em suas próprias
individualidades.
Alguma vez vocês já tentaram imaginar
o que vocês são, fora de todos esses seus relacionamentos? Alguma vez
vocês já se livraram das vestimentas desses relacionamentos e viram a si
mesmos sem elas? Distancie vocês mesmos de todos esses relacionamentos e
vejam que vocês não são filhos de seus pais e mães, não são os maridos
de suas esposas, nem o pai de suas crianças, nem o amigo de seus amigos,
nem o inimigo de seus inimigos – e o que sobra é o seu verdadeiro ser.
Aquela entidade remanescente é o que você é em si mesmo. Durante esses
dias você tem que viver sozinho nesse ser.
Seguindo
esses sutras, a sua mente chegará a um estado, o qual é uma necessidade
absoluta para a compreensão da paz e da verdade. Ao lado desses três
sutras, eu quero explicar a vocês os dois tipos de meditação que nós
começaremos a fazer a partir de amanhã de manhã.
A
primeira meditação é para a manhã. Durante essa meditação você deverá
manter sua coluna espinhal ereta, fechar os seus olhos e manter o seu
pescoço reto. Seus lábios devem estar fechados e sua língua deve tocar o
céu da boca. Respire devagar, mas profundamente. Mantenha a sua atenção
próxima do umbigo. Mantenha-se alerta quanto ao tremor que você sentir
no umbigo devido à respiração. Isso é tudo o que vocês têm que fazer.
Esse experimento acalma a mente e esvazia os pensamentos completamente. A
partir desse vazio a pessoa finalmente entra dentro de si mesma.
A
segunda meditação é para a noite. Estenda seu corpo no chão
confortavelmente e deixe todos os seus membros se relaxarem
completamente. Feche seus olhos e por cerca de dois minutos sugira a
você mesmo que o corpo está relaxando. Gradualmente o corpo se tornará
relaxado. Então, por dois minutos sugira que sua respiração está se
tornando quieta e sua respiração se tornará quieta. Finalmente por
outros dois minutos, sugira que seus pensamentos estão parando. Essa
sugestão firme o levará a um completo relaxamento, tranqüilidade e
vazio. Quando a mente se tornar completamente calma, esteja
completamente acordado em seu ser interior e seja uma testemunha dessa
paz. Esse testemunhar levará você ao seu ser.
Vocês
devem fazer essas duas meditações. Na verdade elas são estratagemas
artificiais e vocês não devem se agarrar a elas. Com ajuda delas, a
inquietação das mentes se dissolve. E da mesma forma que não mais
precisamos da escada ao completarmos a subida, um dia nós também iremos
deixar esses estratagemas.
A meditação atinge a perfeição no dia em que ela se torna desnecessária. Esse estado é o verdadeiro samadhi, iluminação.
Agora
a noite já está avançada e o céu está coberto de estrelas. As árvores e
os vales já foram dormir. Nós também vamos dormir agora. Como tudo isso
é quieto e silencioso! Nós também vamos nos fundir nesse silêncio. Num
sono profundo, num sono sem sonhos, nós vamos para o lugar onde o divino
habita. Esse é o samadhi espontâneo, não-consciente que a natureza deu
para nós. Através da meditação, nós também alcançamos esse mesmo espaço,
mas com a meditação nós permanecemos conscientes e alertas. Essa é a
única diferença. E essa é realmente uma grande diferença. Numa situação
nós vamos dormir e na outra nós nos tornaremos acordados.
Vamos
agora dormir com a esperança de que o despertar também se tornará
possível. Quando a esperança é acompanhada por determinação e empenho,
ela certamente se realiza. É possível que a existência nos guie ao longo
do caminho. Essa é a minha única
prece.”
OSHO – The Perfect Way Copyright © 2006 OSHO INTERNATIONAL FOUNDATION, Suiça.
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